“Pra que poupar se posso morrer amanhã?”, por Gustavo Henrique Costa

Poupar pra que?

PRA QUE POUPAR SE POSSO MORRER AMANHÃ?

Essa é uma crença limitante.

Você sabe o que é uma “crença limitante”?

Antes de começar a estudar sobre educação financeira, eu também não sabia. Porém, tendo noção do que é, passou a fazer sentido para mim, principalmente do quanto que ela nos impede de adquirir conhecimento.

“Crença limitante”, de maneira resumida, é aquele pensamento ou interpretação dito e repetido várias vezes que você toma como verdade.

Só que há um problema: na maioria das vezes, a crença limitante não é uma verdade. Ela simplesmente é falsa. Ou, no mínimo, não é totalmente verdadeira.

Sendo redundante com o nome da expressão, “crença limitante” é aquilo que você acredita como uma verdade (mas não é, ressalte-se) e acaba limitando o pensamento.

Como havia dito no meu artigo “Os 5 elementos da sua educação financeira”, disponível ao clicar aqui, temos uma cultura (um desses elementos) voltada para praticarmos mais o consumismo e menos a nossa capacidade de poupar.

Isso se deve, muitas vezes, em razão justamente desse pensamento: “Pra que poupar se posso morrer amanhã?”.

Se você tem esse pensamento ou é propenso a tê-lo, o objetivo desse artigo é convidá-lo a refletir se pensar dessa maneira não está limitando a enxergar outras consequências que possam vir deste “mantra” (crença limitante) que você está adotando.

Vou apresentar, agora, três argumentos contrários a esse pensamento, que talvez lhe ajudem a enxergar a limitação dessa forma de pensar.

1.      Considere que você, simplesmente, pode não morrer amanhã.

E se você não morrer amanhã? Já levou isso em consideração?

Você gasta tudo o que tem, pois não sabe se vai morrer amanhã. Mas se pergunte: e se você, graças a Deus, não morrer amanhã? Se você só se for daqui a 10, 20, 50 anos?

É provável que não estejamos vivos no dia de amanhã? Sim, é provável. Infelizmente, é possível e não temos como prever ou controlar isso.

Mas também há uma enorme probabilidade de que isso não aconteça. Desconsiderar isso é um erro grande. Segundo a última pesquisa do IBGE, o Brasil tem uma expectativa de vida média de 80 anos para mulheres e 73 anos para os homens. Estou falando em “expectativa” e em “média”. É óbvio que há diversas variáveis que podem mudar esses números para mais ou para menos.

Ou seja, felizmente existe uma probabilidade muito maior de você viver muito mais e não de morrer precocemente.

Na verdade, todos nós desejamos que isso – morrer amanhã – nunca aconteça. E o resultado disso é uma vida longa, torço que feliz e próspera, na qual a indesejável probabilidade de morte antes da hora não ocorreu.

O pensamento do consumo imediato é bom somente para o presente. Porém, ele ignora que o futuro pode vir. E, ignorando, nos deixa sem recursos para o amanhã. Sem reservas, ficamos sem proteção quando precisarmos.

E é justamente nos momentos futuros, quando passaremos a ficar mais vulneráveis, que precisamos ter mais recursos para poder nos proteger.

E olhe que nem preciso citar esses “momentos futuros” como algo tão distante, como anos ou décadas. Você certamente está percebendo a dificuldade que todos nós estamos enfrentando neste exato momento de pandemia da covid-19. Dificuldades de diversas formas, principalmente financeira, com perda de emprego e queda de renda das pessoas e faturamento das empresas.

Será que essas dificuldades poderiam ser amenizadas se o nosso pensamento anterior a esta pandemia estivesse na nossa capacidade de poupar para o futuro e não no consumo imediato como se não houvesse amanhã?

Indo ainda mais para o futuro, não por outra razão, existe a aposentadoria (seja ela compulsória, facultativa ou a que você mesmo formar). Ela tem a finalidade de nos dar proteção e continuar aproveitando a vida com tranquilidade.

É importante ressaltar a expressão “continuar aproveitando a vida”. Não é o objetivo do artigo dizer que o consumo é errado. Muito pelo contrário, sem consumo não vivemos. O problema, repito, é o consumo sem o pensamento no amanhã. Isso, sim, é um enorme problema quando o amanhã vier.

A necessidade de poupar não deve ser ignorada. O pensamento no futuro deve andar ao lado do que fazemos no presente. A palavra chave é equilíbrio. Saber dosar a sua necessidade de hoje, sem deixar de aproveitar a vida, com a necessidade de proteção sua e de sua família no futuro que vai chegar inevitavelmente.

Não sei se você já parou para pensar nisso, mas se você vive no consumo sem pensar no amanhã, o amanhã pode chegar sem você ter mais como poder consumir.

2.      Você não vai levar nada dessa vida… e nem deveria levar.

Quem tem o pensamento de “não poupar hoje por não saber o dia de amanhã” costuma defender sua tese emendando o pensamento de “gastar tudo hoje, pois não vai levar nada dessa vida”.

Se você pensa assim, deixe-me perguntar: E você queria levar? Queria chegar ao céu cheio de carro, dinheiro e imóveis? Era essa a sua intenção?

E já que você queria levar tudo, a sua família, que permanece viva, ficaria sem nada. É isso?

Também em outro pensamento, mais abrangente e solidário: a sociedade, que certamente contribuiu para a formação da sua riqueza, também ficaria sem poder usufruir de alguma forma dos bens que você queria levar com sua partida?

É verdade. Quando formos, não iremos levar nada. Mas talvez esse pensamento possa ser enquadrado como algo egoísta e individualista, não?

O seu pensamento não deveria ser somente com o benefício que você iria ter (levando tudo que tem). Quando partirmos, há pessoas que irão precisar do que fizemos em vida. E a primeira delas é nossa família. E indiretamente, a sociedade que nos ajudou (ou até mesmo diretamente, se você tiver uma nobre intenção altruística).

Vale repetir: viva, nunca deixe de aproveitar a vida da forma que você bem entender. Mas esteja preparado para o amanhã, para os que se vão e para os que ficarão.

3.      Sim, você não é avarento. E espero que não seja pródigo.

Outro argumento utilizado para ignorar o amanhã é o de “gasto tudo hoje, pois não sou avarento”.

Se você pensa que dinheiro é para gastar, eu lhe digo que você está inteiramente correto.

O dinheiro, na forma como conhecemos, tem apenas essa finalidade: gastar.

A diferença está em como gastamos. Há quem gaste o dinheiro “torrando-o”, há quem gaste o dinheiro consumindo, há quem gaste o dinheiro empreendendo, há quem gaste o dinheiro para se proteger e há quem gaste o dinheiro fazendo-o se multiplicar.

O interessante é que nenhuma dessas condutas está errada. Todas elas estão certas, pois dinheiro é realmente para gastar. Porém, se você dá ênfase a uma delas em detrimento das outras, certamente terá consequências. E, no mote do artigo, se você vive gastando hoje, provavelmente priorizando “torrar” e consumir sem necessidade, você consegue imaginar o que vai acontecer? Pois bem.

Quanto a você dizer pra si mesmo que não é avarento, eu só tenho elogios a esse seu pensamento. Graças a Deus, você não é avarento. Isso significa que você não tem uma doença.

Sim, pois avareza é uma doença. Um distúrbio, de causa psicológica. O avarento tem pensamentos egoísticos e apego demasiado ao dinheiro e a riqueza, com tomadas de medidas extremas e pouco aceitáveis no convívio social.

A avareza, porém, não se confunde jamais com uma boa educação financeira. Pelo contrário, a educação financeira tem em suas bases fugir totalmente do defeito da avareza. É incentivado, dentre outras coisas, o consumo consciente, a tomada de decisões financeiras adequadas e o melhor uso possível de nossas finanças. Diferente da avareza, uma pessoa bem educada financeiramente busca usar e gastar suas finanças. Mas da forma mais inteligente, racional e adequada possível.     

Se você pensa em gastar tudo, também lhe chamo a atenção que, se você não é avarento, tenha cuidado para não ser pródigo, o inverso da avareza.

Ser gastador excessivo e dilapidar seus bens pode ser indícios de uma doença oposta à avareza: a prodigalidade. Um comportamento perdulário em excesso, aliás, dá razão até mesmo para uma interdição da pessoa, como prevê o Código Civil.

Nem avarento e nem pródigo. O que devemos buscar, vale repetir, é o equilíbrio na condução de nossas vidas financeiras, aproveitando a vida, mas pensando sempre no amanhã.

CONCLUSÃO

O pensamento de “não poupo hoje, pois posso morrer amanhã” é uma crença limitante, pois nós já a ouvimos anteriormente, reverberamos e a tomamos como verdade. Porém, ela não é totalmente verdadeira.

Na verdade, é uma das crenças limitantes mais perigosas. Ela nos cega e nos faz ignorar um fato de altíssima probabilidade: o amanhã chegará para todos. Para você, para os seus e para a sociedade.

E a chegada do amanhã deve desde já ser preparada hoje. Nós teremos o futuro financeiro que escolhermos. Nunca se prive daquilo que você gosta ou queira fazer, seja um bem material, uma viagem com a família, uma experiência nova ou seja lá o que for que demande finanças.

Mas saibamos respeitar e estar preparados para o amanhã, pois ele chegará.

Gustavo Henrique Costa é Educador Financeiro, Consultor Financeiro, Investidor, Palestrante em assuntos de educação financeira e conteudista do site Jovem Economista.

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