“Reserva de Emergência: Você estava preparado?”, por Gustavo Henrique Costa

Reserva de emergência

Imagine que você esteja vivendo sua vida, trabalhando normalmente, recebendo o seu salário e pagando as suas contas. Você vive na dependência exclusiva de sua renda e não se preocupa em ter dinheiro guardado caso ela falte.

Em um nem tão belo dia, seu chefe lhe chama na sala, lhe dá aquele agradecimento pelos serviços prestados e lhe demite.

É uma situação que você não desejava, mas infelizmente aconteceu. Podia ser até que você previsse que isso um dia acontecesse, calculasse os seus riscos, mas no fundo não gostaria que viesse a ocorrer.

Nessa situação, sem recursos além da renda, você estaria preparado financeiramente para isso?

Agora imagine outra situação.

Sua vida profissional está tranquila. Seu trabalho ou sua empresa estão fluindo bem, gerando a renda ou lucro necessário para a sua subsistência e de sua família. Você também não fez reservas caso esses recursos venham a desaparecer ou diminuir drasticamente.

De repente, surge no mundo um vírus que obriga você a parar de trabalhar ou a sua empresa a fechar as portas. Você para de receber salário ou seu negócio para de produzir e obter faturamento.

Essa também é uma situação que você não desejava, não gostaria e, certamente, não tinha como prever que acontecesse.

Você estaria preparado financeiramente para essa situação?

Em ambos os casos hipotéticos – embora nem tão hipotéticos assim – há o ponto comum de não se ter reservas para o caso de a renda ou o faturamento subitamente reduzir de forma considerável ou até mesmo sumir.

É aí que vem a importância da Reserva de Emergência.

Ela existe justamente para nos proteger das situações indesejadas da vida que acontecerão. Situações que podemos prever, embora não queiramos que aconteça (primeiro caso), ou situações absolutamente indesejáveis e imprevisíveis (como o segundo caso).

Em qualquer caso, ter uma reserva de emergência é extremamente necessário. Ela lhe dará um fôlego, uma segurança e um suporte para ter recursos em situações emergenciais, daí porque o nome.

Infelizmente, apesar de sua importância, nem todo mundo se preocupa em formar sua própria reserva de emergência. Se você entrou na pandemia sem reserva alguma, não se sinta isolado. Você, na verdade, faz parte da maioria.

Segundo essa pesquisa, feita pela ANBIMA, 62% dos brasileiros entraram na pandemia sem qualquer recurso financeiro além da renda para protegê-los.

As razões para isso são as mais variadas, mas certamente se houvesse um conhecimento mínimo de Educação Financeira, ou um pouco mais de atenção para sua relevância, criando-se previamente a conscientização da importância de se guardar recursos para imprevistos, esses números seriam bem menores.  

Com base na relevância de se ter uma reserva de emergência é que escrevemos este artigo. E vamos apresentar algumas informações importantes para entendê-la e já começar a formá-la.

1.      Para quem é a reserva de emergência?

Para todos.

A resposta a essa pergunta é enfática e taxativa: todos.

Ninguém está imune aos imprevistos da vida. O segundo caso hipotético que citamos, o do vírus, nos dá a dimensão do quão as pessoas podem ser atingidas pelos imprevistos. Foi – na verdade está sendo e ainda será – uma crise sem precedentes, atingindo todos em maior ou menor grau. Mas todos, em qualquer lugar do mundo, foram atingidos.

Então, não importa quem você seja, a reserva de emergência é importante para você. Se você acha que não, reflita se o seu excesso de confiança pode lhe ser prejudicial.

A diferença de uma pessoa para outra pode estar no tamanho da reserva, mas ela não deve deixar de existir para ninguém.

A reserva de emergência é necessária para mim, para você e para todos.

2.      Qual o parâmetro para formar a reserva de emergência?

Antes de começar a formar a sua reserva de emergência, é interessante que você tenha um controle financeiro de sua vida. Conheça pelo menos as suas despesas. Você precisa saber o seu custo mensal.

No nosso artigo “Sua vida é uma empresa”, disponível AQUI, abordamos a importância de se encarar um orçamento doméstico como uma empresa gerencia a sua vida financeira.

O parâmetro para a formação da reserva de emergência, portanto, é o nosso custo de vida mensal.

Se para se manter por um mês, com as suas contas e despesas básicas, você precisa gastar R$ 2.000,00, por exemplo, o parâmetro para a formação de uma reserva de emergência é R$ 2.000,00.

Ressaltamos, como sempre fazemos, a importância de se discutir os fatores que encarecem o seu custo de vida. Faça essa reflexão sempre.

Contudo, se você não tem controle algum das despesas, tenha como parâmetro da reserva de emergência o valor de sua renda ou faturamento mensal.

3.      Quanto devo ter em reserva de emergência?

Essa é uma questão que não tem uma resposta precisa e taxativa. Mas tem diretrizes.

Para respondê-la, é preciso analisar critérios subjetivos de cada pessoa.

Dependerá de quem você é, sua idade, estabilidade ou não de seu emprego, se você tem um perfil mais agressivo, mais moderado ou mais conservador como investidor, dentre outros fatores.

Se pudéssemos aconselhar, daríamos a sugestão de ter o valor referente a 03 a 12 meses de custo de vida (ou salário, caso não faça o controle) em reserva de emergência.

Para esses parâmetros, entenda-se ter 03 meses de reserva de emergência para uma pessoa com mais segurança e estabilidade em seu trabalho, com mais oportunidades em caso de perda de emprego ou com perfil de investidor mais agressivo.

E, para 12 meses, indicaríamos alguém com um emprego mais incerto, com mais risco de perda de emprego, com mais dificuldade de realocação ou com perfil de investidor mais conservador.

Apenas como exemplo, a pandemia no Brasil começou em março. Estamos há 04 meses nessa situação. Tudo bem que não é um bom parâmetro a considerar, tendo em vista a situação absurdamente excepcional e sem precedentes que vivemos, mas ajuda a perceber que os imprevistos da vida podem ser mais duradouros do que pensamos.

4.      Quando devo começar a formar a minha reserva de emergência?

Agora. Hoje.

E importante: não depois de começar a investir, mas sim antes.

A formação da reserva de emergência, em regra, deve preceder a decisão de investir.

Mas não se preocupe, isso não é de forma alguma perda de tempo. Controle a ansiedade. Começar a formar a sua reserva de emergência é o início e a porta de entrada para um grande aprendizado.

Muitas pessoas querem investir, mas não sabem como fazer ou por onde começar. A questão é que o ato de investir envolve – ou deveria envolver – um certo conhecimento dos fatores que estão lhe levando a tomar a decisão de fazer aquele investimento.

Antes de investir, é preciso que se tenha a formação de uma reserva para imprevistos.

E durante o tempo em que você vai formando a sua reserva vai adquirindo conhecimentos sobre as formas de investimentos e adentrando cada vez mais no universo da educação financeira. O tempo em que sua segurança (reserva de emergência) vai sendo criada, seus conhecimentos vão aumentando para o próximo passo: direcionar melhor os investimentos.

É como a construção de um edifício. Primeiro pense na fixação dos alicerces da estrutura para depois moldar o prédio à sua maneira.

E nunca se esqueça: antes de correr, vamos aprender a andar.   

5.      Onde colocar o dinheiro da reserva de emergência – Princípios da reserva de emergência

Para a formação da reserva de emergência, você deve se preocupar com dois princípios básicos: segurança e disponibilidade imediata dos recursos.

A segurança exige que o dinheiro esteja em um local com grau de risco bem menor para você. Em outras palavras, em investimentos conservadores.

A disponibilidade imediata quer dizer que a sua reserva de emergência precisa estar na sua mão sempre que você precisar, da forma mais acessível possível. Não poderia estar, por exemplo, em investimentos com um prazo determinado para resgate. Surgiu a emergência, o dinheiro precisa estar lá para uso. Tecnicamente, isso tem um nome: liquidez.

Vejam que eu nem falo, aqui, em rentabilidade.

Quando você toma a decisão de investir, você foca em vários fatores, dentre eles a busca por uma boa rentabilidade. A rentabilidade buscada faz parte da ideia de um bom investimento.

Na reserva de emergência, você busca segurança e disponibilidade imediata. E ATÉ rentabilidade. Se vier uma boa rentabilidade, ótimo.

O pensamento pode ser definido com as ideias abaixo.

Investimento: Quero uma boa escolha com bom retorno financeiro.

Reserva de emergência: Preciso de segurança e disponibilidade.

Carol Stange, em seu “Pequeno Guia da Reserva Financeira”, disponível ao Clicar AQUI nos ensina que o dinheiro da Reserva Financeira não tem o objetivo de proporcionar ao investidor altas rentabilidades. Lembre que o foco da sua reserva deve ser sempre segurança e liquidez. Por mais que você possua um perfil agressivo como investidor, você só deve começar a buscar rentabilidades diferenciadas depois que estiver com a primeira etapa da jornada do investidor concluída, que é a Reserva Financeira”.

Há diversos produtos financeiros que preenchem esses requisitos da reserva de emergência.

Você encontra CDBs, LCIs, LCAs com liquidez diária, Tesouro Direto Selic, a boa e velha caderneta de poupança e até alguns fundos de investimento. Todos esses citados atendem aos nossos princípios buscados na reserva de emergência.

Ou seja, são conservadores, estão disponíveis quando precisarmos e alguns deles ATÉ geram uma boa rentabilidade.

Não há o melhor produto para a reserva de emergência. Aqui, não há uma competição, pois a rentabilidade é um item acessório. Escolha um desses produtos conforme o seu perfil e gosto sem fugir dos princípios que informamos.

CONCLUSÃO

Educação Financeira é um processo. E processo é uma sequência, algo que tem suas etapas e é preciso respeitá-las para a formação do produto planejado ao final.

No processo que buscamos, quanto a nossa educação financeira, a Reserva de Emergência é uma das etapas iniciais. É a sua base. É o ponto de partida que deve preceder os seus investimentos.

É ela quem lhe dará a segurança necessária quando o eventual infortúnio, sobre o qual você não tem controle, venha infelizmente acontecer.

Afinal, a vida nada mais é do que uma eterna luta, dividida em pequenas batalhas. A diferença está em como cada um de nós enfrentaremos essas pelejas.

Se preparados ou não.

Gustavo Henrique Costa é Educador Financeiro, Consultor Financeiro, Investidor, Palestrante em assuntos de educação financeira e conteudista do site Jovem Economista.

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